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Vida e obra de Luís Morais

Palestra proferida no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Vicente (cidade do Mindelo, Cabo Verde), no quadro do XXI Festival da Baía da Gatas, pelo sociólogo e investigador César Monteiro, em 17. Agosto.2005

Nascia, a 10 de Fevereiro do ano de 1935, na Ribeira Bote, freguesia de Nossa Senhora da Luz, em São Vicente, um indivíduo do sexo masculino, a quem foi posto o nome completo de Luís Ramos Morais, filho de Raimundo Conrado Morais (Musa) e de Guilhermina Antónia Ramos (Gadjome), ambos solteiros e naturais da ilha, e neto paterno de Pedro Doroteia Morais (Nhô Pitra) e de Maria Rosa dos Santos e materno de António Manuel Ramos e de Antónia Isabel Ramos, conforme consta a folhas 2, registo n.º 200, do livro de assentos de nascimento n.º 68, arquivado na Conservatória dos Registos da Região de primeira classe de S. Vicente, referente ao ano de 1950. Menino desenvolto e prodígio da Ribeira Bote e oriundo de uma família de músicos, dos quais se destacam, entre outros, o avô paterno Nhô Pitra, o pai Musa e os tios Francisco Alves Morais (Pitrinha), Adão, Manuel Morais (Penha), Augusto e Duca, estes últimos considerados bons intérpretes de clarinete, Luís, desde tenra idade, ganhou o gosto pela música, através de um processo de aprendizagem que decorreu sem sobressaltos de maior, mas, contudo, marcado essencialmente por alguns factos que, mais cedo ou mais tarde, acabariam por condicionar fortemente a sua personalidade, tanto no plano individual, como no musical, bem como a sua vivência, aliás, aspectos e rasgos sobre os quais incidirá, em parte, a minha sucinta comunicação.

Em 1951, Ti Lis, nome por que também era afectuosamente conhecido, termina a 4.ª classe de instrução primária, e, entre 1960 e 1961, apenas inicia o estudo do 2.º ano liceal, numa altura em que cumpria o serviço militar. Em 1954, a mãe Gadjome, que, no tempo dos carvoeiros, em São Vicente, laborava ora na Companhia Nacional de Carvão, ora no Cais da Alfândega transportando, à cabeça, verduras diversas provenientes das ilhas nos palhabotes de então (Rio Mondego, Marlene, Ribeira Brava, Arlette, Albany), nos faluchos (Paul, S. Vicente Liberal e Serrea, entre outros) e no lugre Senhor das Areias, resolve emigrar para São Tome e Príncipe, onde permanece até 1957, trabalhando na roça Água Izé, na azáfama da quebra de cacau, à procura de meios de subsistência para os filhos, porquanto não tinha casa própria e o magro salário não lhe dava para nada. Aliás, o rapazinho, após o cumprimento de obrigações escolares, ficava a maior parte do dia m casa de Nha Tunga, pois Nha Guilhermina labutava de sol a sol e a vida tornara-se-lhe insuportável. Criado, com a mãe, primeiro, na Ribeira Bote e, depois, entre os 9 e os 14 anos, na Rua do Douro (ou Rua de Muralha), no meio de imensas dificuldades, Luís recusara-se, na altura, a acompanhar a progenitora para as roças do Sul, quando ainda contava 18 anos, alegando que São Tome era só para "desanimado" e que Gadjome vendera a cabeça a troco de 410$00, equivalente ao preço do contrato individual, ao emigrar para aquela então província portuguesa. Assim, perante a recusa fundamentada, Luís, traumatizado e amargurado com a viagem, em vez de acompanhar a sua progenitora para o Sul, prefere ficar em S. Vicente, em casa de uma prima chamada Virgínia de Frank Doze, onde permanece durante cerca de três meses. Porém, antes da partida de Nha Guilhermina, Luís coabita durante pouco tempo com o pai Musa, mas acaba por se desentender com a madrasta, de nome Maninha, pelo que passa a residir em casa do seu avô paterno, sita na Rua Guibarra, mais conhecida por Rua de Murguine, juntamente com o irmão Manuel, durante apenas escassos meses. Descendente de gente do Norte da Boa Vista, Nhô Pitra, tocador de trompa (instrumento de acaompanhamento), contrai casamento nessa ilha e, ainda rapaz, chega a São Vicente, donde, aliás, era natural, e ali passa a residir, tendo trabalhado, pela primeira vez, como fiscal na Alfândega e, mais tarde, na Companhia Nacional de Carvão como chefe geral de capatazes, deixando para trás a mulher Josefa Ramos Morais, mais conhecida por Ti Jata, e dois filhos – o Lúcio e a Georgina -, em circunstâncias consideradas pouco normais. Todavia, não tendo o avô paterno de Luís Morais regressado à Boa Vista como prometera, a mulher resolve ir a São Vicente ao encontro de Nhô Pitra, mas, qual foi o seu espanto, é surpreendida com uma amante em casa do marido, deitando por terra o edifício matrimonial construído por ambos.

Na realidade, Luís Morais conhece uma infância relativamente atribulada, em termos de mobilidade espacial, passando de um lado para outro, consoante a conjuntura do momento, se bem que sem qualquer reflexo negativo sobre o seu bom humor, não obstante o ambiente familiar de algum desafogo económico encontrado em casa do avô Pitra, então funcionário influente de uma companhia inglesa em S. Vicente. De facto, as andanças que protagonizou, no quadro de um frágil processo de socialização primária, geram no Luís algum sentimento de revolta interior, se bem que passageiro, com incidências negativas sobre a sua estrutura de personalidade, tornando-o por vezes autoritário, tanto no relacionamento em casa, como na sua actividade profissional e, particularmente, na docência. Na Ribeira Bote, mais precisamente na chamada Ribeira, onde havia muita areia e, mesmo ao lado, hoje armazéns da firma Copa e Campo Alcindo Nascimento, existia uma extensão de tarrafes, charuteiras e bombardeiras, lugar propicio para as célebres brincadeiras de mãos ao ar e má gatchada, que envolvia, entre outros, o Luís e o seu vizinho e menino de criação, António Teodorico Estevão (Toy Estevão, ou Toy de Nhana). Depois de, sucessivamente, ter coabitado com a mãe, o pai e o avô paterno, Luís Morais, ainda adolescente e antes de abraçar a emigração, primeiro para Senegal e, depois, para Holanda, passa, em regime de quarto compartilhado, a viver em casa de Nhá Bernalda, juntando-se ao filho Djosa, com quem estabelecera uma forte amizade e cumplicidade, e ao Djosinha, ambos intérpretes de clarinete. Ao grupo liderado pelo Luís e, diga-se de passagem, o único superdotado, pelo menos do ponto de vista musical, e o mais evoluído dos seus pares, viria, em 1964, a associar-se o Armando Pitanga, aliás também ele conhecido no meio mindelense como um excelente executante de clarinete, entre outros elementos. Escasso meses antes de falecer, Cacói evocava, com o seu jeito tipicamente desinibido e cómico, as relações de amizade que então mantinha com Luís Morais em casa de Nhá Bernalda, situada atrás da Igreja Salesiana, que, aliás, frequentava diariamente para fazer recados, transportando, pontualmente, o saxe do Ti Lis para as salas de baile de José de Canda, Jacob ou Toi Bintim, a troco de dez tostões para pon de midje e sucrinha. Na altura, a casa de Nhá Bernalda era, também, frequentada por Manel d'Novas e Frank Cavaquim e funcionava como um interessante núcleo de atracção musical e recreativo.

O interesse do Luís pela música nasce cedo. Já entre os oito e dez anos apanhava carriço, introduzia os buracos, adaptava teia de aranha e tocava em bailes infantis, baptizados de aboborinhas e bonecas confeccionadas de trapo, ou de celulóide que determinadas moçoilas de então organizavam. Na verdade, ainda na infância e antes de ingressar na Escola de Música do Senhor Reis, o primeiro instrumento musical que Luís Morais utilizou foi a flauta-pífaro, que lhe cedera, a seu pedido, o pai Musa, famoso clarinetista de então. Posteriormente, o Luís e o Toi Estevão, filho de Elesbão, também conhecido por Nhô Lisbone, clarinetista da Banda Municipal, formam um dueto de flautas, ao qual, mais tarde, viria a juntar-se Aponino Almeida, conhecido por Nelson de Nhá Nizinha, ex-emigrante, que passa a animar sessões de música na zona, cujo acompanhamento era assegurado pelo ritmo de frigideiras velhas, servindo de banjo, e latas de petróleo, servindo de bateria, em coretos improvisados através de carros de mula utilizados, ao tempo, no transporte de materiais de construção, numa altura em que quase não havia camionetas em São Vicente. Ainda criança, quando estudava a terceira classe de instrução primária, na Ribeira Bote, a mãe resolve matriculá-lo na Escola Profissional de Artes e Ofícios, vulgarmente conhecida por Pontinha, dirigida pelo mestre Teodoro Gomes (Cunko), na condição de aprendiz de serralheiro mecânico, mas, sempre que podia e contra a vontade de Gadjome e do pai, fugia para frequentar a Escola de Música do Senhor Reis. Aliás, na Oficina da Pontinha, Luís, que era uma criança fina, do ponto de vista físico, permaneceria apenas durante cerca de treze meses, tendo, posteriormente e desta feita, iniciado actividade como aprendiz de carpinteiro-marceneiro na oficina de Félix de Nhá Carlota, situada nas imediações da antiga sala de baile de Dublinha. Nessa oficina de carpintaria e marcenaria do Félix, Luís Morais, que mostrara vocação para a música, viria também a inscrever-se definitivamente na Escola de Música dirigida pelo famoso professor Senhor José Alves dos Reis, regente da Banda Municipal de S. Vicente e responsável pela aprendizagem musical de várias gerações de mindelenses, particularmente da família Morais. De facto, aos 14 anos, refere uma sucinta autobiografia do músico e artista escrita a solicitação de Alberto Rui Machado, Luís Morais, que estudava de manhã e à tarde e apreciava já o bom clarinete do Ti Fefa, ou o trompete de Djack Estrelinha, inicia os seus estudos musicais na Banda Municipal de São Vicente com o Maestro Alves dos Reis e, após ter concluído o curso de Solfejo e Teoria Musical, começa a tocar clarinete requinta, tendo, igualmente, passado por clarinete em Si bemol, saxofone soprano e saxofone alto. Entrementes, começa a praticar a flauta, tendo sido, posteriormente, transferido para saxofone tenor. Já nessa idade, Luís Morais executava alguns temas musicais com a Banda Municipal, no coreto da Praça Nova, ou em grupo com os tios e amigos, em bares, em festas ou em bailes.

Em Outubro de 1950, Luís Morais passa a integrar a Banda Municipal de São Vicente, juntando-se ao Manel Clarinete (ou Manel Requinta) e ao Morgadinho. Entretanto, em Outubro de 1954, após ter efectuado uma digressão ao Fogo integrando a Banda Municipal sanvicentina, Morais abandona a Banda e parte para a ilha do Sal, a convite de Toi Fininha para tocar num baile de seu aniversario natalício, a 30 de Novembro, acabando por encantar tudo e todos com o seu sensual e deslumbrante clarinete e ali permanece até 1957. No Sal, Luís Morais chega a residir em vários locais, mas terá vivido, inicialmente, durante algum tempo, em Pedra de Lume, em casa de Lela de Tchau, também natural de S. Vicente, carpinteiro, executante de violão e bateria, falecido não há muito tempo, com quem animava bailes. Posteriormente, passa a viver na Preguiça (Espargos), onde também trabalhava, até ao regresso definitivo à ilha natal. Curiosamente, nessa altura, Luís Morais, único clarinetista que havia na ilha, animava todos os bailes em Espargos (Preguiça e Hortelã) e em Pedra de Lume, acabando por destronar o violino, na altura o instrumento em voga. Na ilha do Aeroporto, Luís consegue o seu primeiro trabalho na Messe do Hotel Atlântico, um ramo hoteleiro que fornecia refeições aos trabalhadores do Aeroporto, mas ali permaneceria durante pouco tempo. Entretanto, graças ao português Amadeu Moreira, chefe-geral de uma empresa portuguesa encarregue da construção das obras do Aeroporto denominada Direcção de Serviços de Obras (DSO), um dos departamentos da aeronáutica civil portuguesa, e, ao mesmo tempo, treinador da equipa de futebol Obra, criada em 1954, Luís Morais passa a prestar serviço nessa unidade empresarial como ajudante de carpinteiro de Armando Rodrigues, também ele carpinteiro e natural de S. Vicente, com o intuito de poder jogar na equipa salense.

Para além da sua natural vocação musical, o Luís tinha alguma inclinação para a carpintaria e fazia banquetas, mesinhas para jogo de bisca. Os que o conheciam consideravam-no trabalhador e buldonhe na profissão que exercia. Depois, em 1954, ano em que precisamente chega ao Sal, transfere a sua residência para a localidade de Morro de Curral, na Vila dos Espargos, e passa a viver num quarto que a Empresa onde trabalhava lhe cedera gratuitamente. Já nessa altura, começa a frequentar, em Preguiça, na Vila dos Espargos, na Rua 55, a casa da mulher com quem viria a ter o seu primeiro filho varão. Mais tarde, arrenda um quarto em Ribeira Funda, também na Vila dos Espargos, cuja proprietária era uma senhora de Santo Antão que então respondia pelo nome de Joana de Gualdina, e passa a manter relações passionais com uma segunda mulher, até ao seu regresso definitivo a São Vicente, em 1958, quando a empresa resolve fechar as portas. No Sal, Luís Morais cultiva excelentes relações sociais e de amizade que, por sinal, deixaram marcas e raízes profundas, sendo prova evidente dessa passagem pela ilha os dois filhos – Ana Maria Rocha Fernandes e Carlos Rocha -, que resultaram da ligação mantida, sucessivamente, com duas senhoras salenses. Na altura, a sua relutância pela bebida alcoólica era tamanha, ao ponto de quem o acompanhasse em bailes não ousar levantar-se, a não ser nos intervalos, preferindo o isolamento do seu grupo musical em relação ao público, durante a actuação, e evitando, assim, qualquer tipo de contágio ou interrupções frequentes, numa postura rígida de disciplina.

Em 1956, Luís Morais e o Superintendente Nazareno Gilberto Évora, também natural de S. Vicente, conhecem-se no Sal e estabelecem, rapidamente, relações de amizade. Ao tempo, recorda o Pastor Évora, Luís um jovem educado, alegre, participante, popular e de uma simpatia total perante a congregação nazarena dos Espargos, era crente, tinha fé e frequentava a Igreja Nazarena, praticava música sacra e colaborava nos cultos, executando o saxe. Para além de crente nazareno, Luís Morais revelar-se-ia no Sal como um "grande futebolista" evidenciando delicadeza e educação no rectângulo do jogo. Taninho Évora admirava-o muito, pois acabara de se formar na Escola de Música do Senhor Reis em São Vicente e executava muito bem o requinta, tirando solos extraordinários de clarinete. Pela primeira vez, Luís Morais introduz na ilha do Sal o clarinete, que, passa, assim, a suplantar os bailes de violino animados por Manim Tudinha e Ti Rocha e ensaiava num quarto na Ribeira Funda, sito actualmente na chamada zona de António sapateiro, com um grupo musical constituído por Manuel de Eugénia (violão), Taninho Évora (violão), Augusto Tudinha (viola de 10 cordas), Tututa (cavaquinho) e Lela Tchau (bateria ou djazz). Habitualmente, esse grupo tocava no Clube d'Obra, situado frente à Policia, no Morro do Curral, num salão pequeno ocupado por um palanque suspenso na altura para assim permitir que as pessoas dançassem. Foi precisamente nessa altura que Luís Morais começaria a interessar-se pelos solos de violão de Luís Rendall, Tazinho e Taninho, transcrevendo-os para a pauta. Para além do trabalho na empresa portuguesa de construção civil, na área da carpintaria, e da música, Luís Morais jogava, no Sal, no Campo d'Obra inaugurado em Maio de 1956, na posição de lateral direito ou defesa central no clube desportivo d'Obra, revelando-se um jogador tecnicamente razoável, "duro e muito forte como uma parede", característica que lhe permite, mais tarde e após o seu regresso à ilha natal que tanto adorava, alinhar para a Associação Académica do Mindelo, desta feita como médio de ataque, envergando a camisola 6, durante quatro ou cinco anos e até 1962, data em que emigra para Senegal. Todavia, antes de o fazer, ingressa, em 1960, no serviço militar obrigatório em São Vicente, na segunda incorporação daquele ano, na 2.ª Companhia de Caçadores, com o estatuto de soldado refractário não tendo, contudo, deixado de praticar e tocar todos os instrumentos de sopro atrás referenciados em bailes, piqueniques e espectáculos diversos nos clubes e salas do Mindelo como Castilho, Académica, Eden-Park, Miradouro, Djacó, Zé d'Canda, Grémio, etc.

Concluída a escola de cabos, Luís Morais ascenderia à categoria de cabo com o número 73/60, permanecendo no serviço militar na ilha até finais de 1962. Do ponto de vista estritamente disciplinar, o então alferes miliciano de Infantaria naquela unidade, Vicente Andrade (Tchenta) considerava Luís Morais um militar cumpridor, apesar do seu estatuto inicial de refractário, com uma personalidade deveras interessante, um indivíduo muito alegre, solidário com os colegas, disciplinado e em relação a quem nunca houve sequer uma queixa. Portador de uma caderneta militar sem qualquer castigo, Luís Morais era uma figura impoluta e respeitadora, razão por que tinha ele a vida facilitada pela unidade militar que o dispensava aos fins-de-semana para animar bailes e ganhar algum dinheiro, como prémio. Na medida em que era músico, na tropa era instrutor dos chamados corneteiros de fanfarra militar, andava sempre em punho com o seu clarinete no Quartel e, nas horas vagas, fazia os seus ensaios, sem prejudicar, todavia, os serviços normais que, via de regra, faz todo o cabo na unidade militar. Cumprido o serviço militar obrigatório em S. Vicente como primeiro-cabo monitor da Escola de Recrutas na 2.ª Companhia de Caçadores e não podendo prosseguir os estudos musicais, Luís Morais resolve, em 1962, emigrar para Dakar, onde já se encontravam o Bana, o pai Musa e o tio Penha, ficando hospedado, durante algum tempo, num quarto que este último gentilmente lhe cedera, a titulo provisório e até que ele conseguisse um espaço próprio e melhor. Saliente-se que, já em 1952, tanto o pai como o tio, haviam chegado a Dakar a bordo de um navio chamado Miguel da Conceição, propriedade de Djedjê de Nhô Henrique Mendes, ficando o Luís, em São Vicente, em casa de Nhá Bernalda. Todavia, antes da sua partida para Dakar, aguarda dez dias em casa do seu colega clarinetista Cesário Duarte, na Rua Horta, na Praia, à espera da competente autorização de saída a ser emitida pela PIDE, que, desconfiada da viagem, o molesta e o submete, durante vários dias, em São Vicente, a interrogatórios. A sua salvação é que, na altura, era jogador da Associação Académica do Mindelo e os dirigentes desse clube tiveram que intervir convencendo finalmente a PIDE a autorizar-lhe a viagem.

Em 1964, Luís Morais, que residia na Rua 5, em Corniche, ingressaria no Conservatório de Música denominado École des Arts em Dakar, com o n.º de matrícula 91, e ali concluiria os seus estudos musicais, formando-se como músico médio, tendo-se dedicado essencialmente ao estudo da flauta. Em Dakar, Luís Morais encontraria, também, o Djosinha, irmão falecido da Ofélia Ramos, muito conhecido nessa cidade senegalesa como Joseph du Portugal, conceituado executante de banjo e violão, que pertencera, antes da sua emigração para Senegal, ao conjunto musical acústico de Djack Estrelinha e tocara, em São Vicente, com Augusto Morais, Ti Fefa e o próprio Luís. Em Dakar, Luís Morais e Djosinha, que residiam no mesmo bairro senegalês denominado Medina, chegam a tocar juntos num dancing chamado Miami Jazz, propriedade de um senegalês, onde havia uma orquestra que, mais tarde, passa o próprio Luís a dirigir, numa altura em que a Ofélia ali já se havia fixado, desde 1956, e explorava um restaurante muito frequentado por cabo-verdianos emigrantes, sito na Rua 15, no referido bairro. Entretanto, Luís deixa a casa do tio Penha, que o havia acolhido provisoriamente, e muda-se para a Rua 9, no bairro Medina, passando a comer no Restaurante da Ofélia, juntamente com o Bana e outros artistas cabo-verdianos.

Em Fevereiro de 1963, Luís Morais conhece Maria Graciela Santos na boite Miami Djazz, onde tocava, com quem se viria a unir, durante alguns anos, mais precisamente em Liberté 3, em Dakar, em regime de união de facto, deixando de frequentar o Restaurante da Ofélia. Posteriormente, Luís abandona o Miami Djazz e passa para o cabaret Saloum, aberto em 1965 e propriedade de um cabo-verdiano natural da ilha de Santiago, de nome Nuna, juntando-se ao Bana, Morgadinho, Toi d'Bibia, Jean da Lomba, Manel Ti Djena e Humbertou, além de mais seis senegaleses. Em Dakar, actua em bailes cabo-verdianos e nos cabarési Miami Jazz, Saloum Rhytm, Calipso ou Pigalle, e elege o clarinete, o saxofone e a flauta como instrumentos de sopro preferidos, numa época em que se impunham, no plano musical, os ritmos latino-americanos como o merengue e o chá-chá-chá, e chega a tocar com músicos cabo-verdianos, senegaleses, camaroneses e ganeses. Mais tarde, em Junho de 1966, Luís Morais ruma para Holanda, onde, em Roterdão, viria a criar o mítico Voz de Cabo Verde, juntamente com Morgadinho, Toi d'Bibia, Jean da Lomba e Frank Cavaquim e ao qual se associariam, sucessivamente, o vocalista Djosinha (1967) e o pianista Chico Serra (Maio de 1968). Este conjunto musical, pelo seu perfil, assumiria na época um importante papel de mobilização, aglutinação e consciencialização em torno da luta de libertação nacional, particularmente no seio da Diáspora, sem, todavia, qualquer dimensão política relevante, bem como de modernização e internacionalização da música cabo-verdiana.

Entretanto, depois de alguns anos de coabitação, Luís Morais resolve contrair casamento com Maria Graciela, em 1968, na Associação Académica do Mindelo, conforme registo n.º 52, a folhas 90 do livro n.º 20, em São Vicente, na presença de muitos convidados e dos demais elementos e companheiros do Voz de Cabo Verde. Após a união conjugal da qual resultaria o filho varão Anildo, a quem, igualmente, o pai dedica um solo de clarinete no disco Boas Festas, segue-se um período marcado por alguma desorientação e turbulência no relacionamento entre ambos, de acordo com a própria Graciela, em que "cada um vai para o seu lado", culminando, irremediavelmente, na dissolução do casamento, por divórcio, decretado por sentença de 14 de Novembro de 1981 do Tribunal Judicial da Região de 1.ª classe de São Vicente, perante uma situação insustentável motivada, essencialmente, por incompatibilidade de carácter. A despeito de alguma briga pelo meio e alguns acidentes de percurso ocorridos ao longo da atribulada relação conjugal, Luís Morais dedica um solo de clarinete à então mulher do seu sonho, como dizia ele, no seu primeiro disco Boas Festas, e, mais tarde, no disco Bana a Paris volta a dedicar-lhe outra composição, de sua autoria, intitulada Sodade de Maria Graciela, numa altura em que esta já se encontrava de regresso ao Senegal.

Divorciado e de regresso definitivo ao torrão natal, Luís aposta na recomposição do agregado familiar, precisamente aos 47 anos de idade, elegendo, desta feita, em segundas núpcias, como companheira eterna, Isabel Vicência Morais (Bela), por sinal ambos primos, também natural de São Vicente (Chã de Cemitério), através de casamento civil celebrado a 19 de Janeiro de 1983, em regime de comunhão de adquiridos e perante a Conservadora dos Registos da Região de Barlavento, Armanda Maria Mendes Fonseca Torres, de acordo com o Assento de Casamento n.º 4/83, registado no livro n.º 29. Do casamento contraído com a mulher da sua vida, marcado por excelentes relações conjugais, nasceria apenas uma filha, a Sissi (Arlinda Ramos Morais), actualmente radicada nos Estados Unidos da América. Em casa, Luís Morais tinha hábitos interessantes que facilitavam a sua actividade artística, marcada, também, pelo empenho, rigor e disciplina que, em parte, caracterizavam a sua estrutura de personalidade. A profissão de músico exigia-lhe muitas digressões ao estrangeiro, mas, via de regra e sempre que não tocasse na véspera à noite, levantava-se as 7 horas de manhã, tomava banho e ia à Escola leccionar. Habitualmente, em casa, passava o dia a escrever música, via televisão para apenas acompanhar desafios de futebol e o noticiário, lia jornais e recolhia-se cerca das 23 horas, depois do noticiário televisivo. Não frequentava o cinema, mas via filmes em casa, através de videocassetes que lhe enviavam os filhos dos Estados Unidos da América, tinha uma voz rouca da qual se socorria pontualmente sempre que preparasse uma obra musical e, quando se encontrava ligado matrimonialmente à Graciela, dançava muito. Ouvia muita música cabo-verdiana (mornas e coladeiras) e brasileira, comia razoavelmente, sendo o peixe grelhado, a garoupa ao forno, o atum estufado e o cabrito os pratos predilectos do músico. Semanalmente, comia bife e, aos sábados, não podia faltar, em casa, a tradicional cachupa. Gostava muito de água e, ao almoço, apreciava o vinho ou, de vez em quando, uma fresca cerveja Heineken. De quando em vez, ia à Baía das Gatas ou à Lajinha, mas apenas para passear e ver pessoas e para nunca nadar, e procurava marcar presença no popularmente denominado Campo Novo sempre que a sua Micá jogasse, ou defrontasse o Mindelense. Tinha um leque grande de amigos e lia alguma literatura sobre música. Em casa, era rigoroso, austero e por vezes severo no relacionamento com os filhos e, quando compunha ou fazia qualquer arranjo musical, não queria, de forma alguma, ser perturbado.

Descendente de uma família boavistense do Fundo das Figueiras, localidade que deu bons músicos e compositores à ilha das dunas, à dimensão, por exemplo, de Patrício Pereira, ou Manuel Florinda, entre tantos outros, Luís Morais nasceu para a música, sendo dotado de forte personalidade individual caracterizada por um conjunto de traços essenciais que dele faziam uma figura dos nossos tempos deveras sui generis, invulgar e extremamente cativante. De trato cordial e afável, muito espontâneo e sempre bem-humorado, Luís Morais, pai de 9 (nove) filhos espalhados por vários países do mundo (Cabo Verde, Martinica, Estados Unidos da América, França e Holanda) e dos quais apenas 4 (quatro) perfilhados e mulherengo como o avô paterno, era um homem extremamente simples, desprendido e generoso, exageradamente humilde e modesto, demasiado brincalhão e persistente, mas sobretudo um homem fantástico e fabuloso, cheio de vida, a qual adorava, muito extrovertido, de risadas e gargalhadas sonoras, enfim, um "rabugento agradável", como dizia Tolas, a despeito da sua inegável estatura musical. Não era um homem de reverência, mas, de acordo com Leonel Almeida, uma "criança autêntica e uma alma grande", uma figura mindelense carismática e luminosa, na opinião do encenador João Branco, o relâmpago mais brilhante que surgiu alguma vez no céu de Cabo Verde, segundo Vlú, ou então, na feliz expressão da escritora Dina Salústio, um barulhento de alegria, fiel a amizades, que tinha o condão de lidar com todas as camadas ou extractos sociais, sem quaisquer preconceitos e malicias.

Na busca permanente pela perfeição que, igualmente o caracterizava, Luís, que tinha um sentido de vida humanizado, fazia de um encontro na rua com um amigo uma festa, cumprimentava aos gritos com uma alegria trasbordante e transmitia uma luminosidade potenciada ainda mais pelo clarinete, apreciava anedotas e sabia produzi-las no dia-a-dia, no contacto directo com as pessoas, graças à sua abertura descomplexada e à descontracção. Aliás, a atitude de Luís Morais perante a vida, a forma de estar e a maneira simples e extremamente aberta, cordial e leve como se relacionava com as pessoas, de uma forma geral, transmitia, para alguns, a imagem de um misto de generosidade e ingenuidade, quiçá, explicava Francisco Mascarenhas, "embalado mais pelo lastro afectivo do que pelo intelectual". Para Manuel Faustino, Luís era, a um tempo, de uma pureza incrível e de uma certa ingenuidade no trato com as pessoas, mas no sentido positivo, sempre disponível, sem formalidade e sem maldade, generoso e desprendido, rasgos que acabariam por lhe conferir uma certa nobreza. Havia, pois, no Luís Morais, no entender de Faustino, uma contradição entre, por um lado, a simplicidade da sua figura, do seu contacto, do seu relacionamento e, por outro, a profundidade da sua grande capacidade artística, ou seja, entre a impressão que ele próprio passava do imediato e aquilo que era enquanto artista. A sua ingenuidade evidenciava-se sobretudo através de brincadeiras e da pouca profundidade e simplicidade com que ele analisava determinadas situações mais sérias, já que as suas limitações académicas, associadas à ausência de uma sólida cultura de organização, não lhe permitiam, de forma alguma, atingir patamares de análise de questões mais sofisticadas, apesar da sua personalidade forte e dominante. Já no plano meramente musical, a sua personalidade ou identidade, como se quiser, definia-se, em rigor, de acordo com Vasco Martins, pela maneira como ele tirava timbres dos instrumentos de sopro que tão bem dominava e na fraseologia musical, ou seja, no discurso. Graças à sua identidade, Luís, imprimia ao som um som próprio dele e, do mesmo passo, conseguia transportar para a música esse estado de espírito de alegria permanente que o rodeava. O seu estilo inconfundível, acrescido à sua extraordinária capacidade de comunicação, identificava-o não só com o público, mas também com os músicos no palco, particularmente através da géstica (risos, sinais, etc.). Pode dizer-se, assim, que Luís Morais, exigente e perfeccionista, vivia a música em permanência, tratando-a com seriedade, tinha uma personalidade musical própria, uma forma especial de estar na música, espelhada na sua vasta discografia e no seu sopro peculiar, diferente e vigoroso, bem como no próprio Voz de Cabo Verde, concebido à sua dimensão.

Contudo, apesar da sua notoriedade e reconhecida projecção nacional e internacional como músico, Luís Morais não conseguia perceber a sua grandeza, a sua verdadeira dimensão, não tinha consciência do seu valor como músico e sequer tinha a noção exacta da sua contribuição dada em prol da cultura cabo-verdiana, mas apenas sabia que era bom músico, quanto baste. Para muitos, comparável, por exemplo, ao camaronês Manou di Bango ou ao italiano Fausto Papetti, Luís Morais representou, sem margem para dúvidas, um dos expoentes máximos da música cabo-verdiana, enquanto intérprete de sopro, dotado de uma extraordinária criatividade e capacidade de improvisação, variações e mudança de tonalidade, bem como dono de um ouvido absoluto e de uma digitação notável, que dele fariam, a um tempo, um músico moderno incontornável altamente influenciado pelos hits modernos de Santana, Papetti, Pitanga e Saraiva e uma figura de marca. O seu clarinete, as suas melodias e os seus solos constituem, na opinião do poeta Corsino Fortes, uma ponte emotiva entre ele e o seu povo, entre o hinterland (dentro das ilhas) e a Diáspora. Com efeito, enquanto intérprete de sopro, revelou-se como o expoente máximo no universo musical cabo-verdiano, com um estilo próprio de improvisação e elevado sentido estético na leitura musical, e um dos principais responsáveis pela introdução e afirmação do clarinete em São Vicente, numa altura em que o ciclo do violino iniciado a partir da segunda metade dos anos 40, protagonizado e liderado por Mochim de Monte, Mané Carena, Armando de Tchitcha e Fidjin Barber, entre outros, começava a declinar, bem como pelo resgate do estilo brasileiro do Pixinguinha de quem, aliás, recebia muita influência na execução de solos de clarinete e em quem se inspirou, em parte. Sem dúvida alguma, o clarinete era o instrumento de sopro em que Luís Morais tinha maior domínio e com o qual se sentia mais volátil, mais versátil e perfeitamente à vontade, com muita influência da música brasileira (chorinhos), particularmente de Pitanga e Saraiva, e da sul-americana, sobretudo da cumbia, bem como da América Central. De forma inteligente, soube utilizar o clarinete na música cabo-verdiana, particularmente na morna, cujo timbre reflectia a melancolia e a tristeza, assumindo-se, na verdade, como um virtuoso e exímio intérprete de sopro ao ponto de se evadir de arranjos iniciais e criar variações muito belas. Pela capacidade de dominar o clarinete, Luís Morais teve a capacidade de, a partir do choro brasileiro e privilegiando uma excelente técnica de execução baseada essencialmente na velocidade e na improvisação, evoluir rapidamente para o choro cabo-verdiano, não impregnado do sentimento brasileiro, mas incorporando elementos da cabo-verdianidade, o que, só por isso, lhe confere um lugar cimeiro na historia musical do país. Senhor de uma embocadura melodiosa, com notas claras, conseguia extrair do seu espectacular clarinete um som agudo e cada vez mais puro, com uma sonoridade própria, que, através dele, expressava o seu sentimento pessoal, a melancolia e a tristeza. Rápido, com enorme destreza, tanto na execução do clarinete como do saxofone e autêntico malabarista na utilização dos instrumentos de sopro, as suas músicas têm uma estrutura harmónica extremamente complexa, caracterizada por uma variação de tonalidades e um enriquecimento de acordes e variam de maior para menor ou vice-versa, com uma facilidade e enquadramento deveras impressionantes. Afinal, o que vem ao de cima e que suplanta o resto, refere a escritora Ondina Ferreira, é a fabulosa interpretação do clarinete de Luís Morais e, logo, a sua faceta de exímio intérprete musical, com uma forma individualizada e muito própria de mexer com as variações do clarinete e, igualmente, com uma sonoridade muito peculiar que ele ajeitou em estilo próprio, como uma espécie da marca distintiva.

Para além de notável intérprete de instrumentos de sopro e de prestigiado orquestrador, Luís Morais, que contribuiu enormemente para a viragem e modernização da música clássica cabo-verdiana, bem assim para a construção do tecido chamado Nação, impôs-se no cenário musical, já numa dimensão menor, como bom arranjista de clarinete e violino. Muito experimentado no domínio musical, dotado de um ouvido extraordinário, de sensibilidade fina e conhecedor profundo da teoria musical, da harmonia e da orquestração, Luís Morais escrevia para a pauta para grandes homens da música internacional que chegaram a acompanhá-lo nos seus trabalhos discográficos, a exemplo do grande maestro internacional, pianista e compositor basco, Shegundo Galarza, falecido a 4 de Janeiro de 2003, do trompetista português Idalino, do violinista português, Ventura ou, então, do maestro e violinista português, Luís Velásquez. Ainda no cenário meramente musical, chega a impor-se como compositor versátil, tanto no plano instrumental como no da letra propriamente dita, com mais de 35 composições (com letra e música). Como letrista, concebia boas composições, captava a realidade cabo-verdiana e inseria-a na música, a exemplo, entre outras, de Merecimento de mãe, interpretada magistralmente por Bana, se bem que o seu lado mais forte fosse o de instrumentista com harmonia, melodia e afinação e de arranjista muito particular, que desenvolvia, na perspectiva de Vasco Martins, o princípio do arranjo fragmentado, cortando as frases musicais, sobretudo na fase introdutória, e improvisando consoante o solista, numa espécie de contracanto. Na verdade, Luís Morais, que tinha um ouvido absoluto, uma grande facilidade de escritura e grande capacidade de improvisação, não se destacou, na vida musical, como um compositor de marca, da dimensão, por exemplo, do Jotamonte ou de Manel d'Novas, pelo menos no género da morna, e sequer estava preocupado com essa faceta, mas apenas interessado em prestar à música cabo-verdiana relevantes serviços como criador. Basicamente, as suas composições, no género da coladeira, seguem a linha estilística de Ti Goy, Frank Cavaquim e Manel d'Novas, se bem que, de todos os três pertencentes à mesma geração, Luís Morais fosse o menos sarcástico. As suas coladeiras, inspiradas na realidade mindelense de então, eram essencialmente marcadas pela sátira social e faziam parte do leque temático da coladeira maldizente e crítica, seja para determinados modismos e usos da época, seja para a mulher, afinal a sempre visada, numa altura em que havia alguma preocupação com jogos de rima, mas sem, no entanto, grandes preocupações com a poesia. Menos poeta, mais compositor de solos de clarinete fantásticos influenciados pela música latino-americana e mais intérprete de sopro, Luís, através das letras das suas composições, revelou-se um sentimentalista, com um profundo amor à terra e ao cretcheu, aliás na esteira do seu tio Pitrinha, que com ele constitui autêntico clã de músicos.

De resto, ao longo de uma carreira de meio século, são incontáveis as composições que Luís Morais, monumento incontornável da música cabo-verdiana, deu a gravar, ou registou. Já nos finais dos anos 50 e ainda moço, antes da sua partida para Dakar, faz as primeiras gravações na então Rádio Barlavento, sob a coordenação técnica de Gustavo Albuquerque da Silva, com Amândio Cabral, Titina, Djosinha, Malaquias Costa, Lela Preciosa, entre outros, dos quais, mais tarde, seriam editados singles fabricados na Alemanha e editados pela Casa do Leão. De facto, Luís Morais deixa uma discografia soberba e de indiscutível interesse que vem enriquecer sobremaneira o património musical cabo-verdiano. Aliás, depois da Cesária e do Bana, Luís Morais, com cerca de 30 obras gravadas com solos de clarinete e saxofone e com vários discos também gravados com o Voz de Cabo Verde, é o músico cabo-verdiano com maior discografia. Para além da vasta produção discográfica a solo registada no período que medeia entre 1967 e 2002, Luís Morais participou, em parceria, na gravação de álbuns de outros artistas, designadamente, Cesária Évora, Titina ou Djack Monteiro. Igualmente, colaborou com alguns artistas como sejam Toy Vieira, Paulino Vieira, Armando Tito, Ramiro Mendes, João Motta, José da Silva, Chico Serra, Gerard Weil, Ruis Novais, Jean-Loup Morette, Titina, Bau, Manu Lima, Miguel Yamba, Denis Hekimian, Philip Guez, Edith Lefel, etc.

Todavia, da sua abundante produção discográfica, importa destacar o Boas Festas, álbum instrumental editado em 1967, deveras emblemático e extraordinário, que o celebriza e o eterniza, enquanto figura mítica da música de Cabo Verde. Ainda relativamente cedo, preocupa-se com o registo dos seus trabalhos discográficos e das suas composições, pelo que se torna, desde 1960, membro da SACEM – Societé des Auteurs, Compositeurs et Editeurs de Musique com sede em Paris passando a receber, regularmente, nessa qualidade, os respectivos direitos autorais. Todavia, a sua intensa actividade não se circunscreve tão-só à parte discográfica, mas abrange a sua participação activa em vários conjuntos e grupos musicais com referência especial para Voz de Cabo Verde, Cabo Samba e Serenata, entre outros, bem como em importantes digressões a várias países do mundo juntamente com consagrados artistas nacionais, com realce para a sua actuação com a Cesária Évora a 12 e 13 de Junho de 1993, no Olympia de Paris, e a 28 de Abril de 2001, no Zenith de Paris. Apesar da faceta humorística constante que o distinguia, Luís Morais tinha um sentido apurado da disciplina, particularmente nos ensaios, e sempre que, nos trabalhos, se executasse algo mal, gritava, berrava, discutia, é, pará, não é assim, el ta la, e la, olal, mas, ao invés, quando o artista interpretasse a partitura tal como a escrevia, elogiava, todo radiante, gritando, com o riso da aprovação, e là, e là, agora sim. Rigoroso, organizado, dedicado, atento e extremamente exigente em ensaios, não queria ser perturbado, de forma alguma e, adoptando, por vezes, uma postura dura, mas amiga e correcta, chamava a atenção para incumprimentos, socorrendo-se do seu humor típico, cultivava a pontualidade, chegava ali já com o trabalho de casa feito e pronto para avançar, montava os seus instrumentos, tirava a sua pauta, dava aos músicos a tonalidade, a introdução da música, a parte do meio e a parte final e arrancava de seguida. A sua exigência musical tocava às vezes, raias de chato e, por isso mesmo, algumas pessoas não o entendiam, acusando-o de autoritárismo. Em tournées musicais, Luís Morais também era amigo, cumpridor de deveres, fácil de lidar, sempre a brincar e, tal como em ensaios, comportava-se como um colega mais velho, num tom coloquial. No palco, conseguia transportar a faceta humorística que o caracterizava, mudava de notas sem aviso prévio, surpreendia tudo e todos improvisando músicas novas que não haviam sido ensaiadas, ou não incluídas no repertório. Todavia, se algo falhasse no palco, advertia os colegas fazendo sinais e gestos, privilegiava a comunicação com mímica, sorrisos e palavras, mantinha um relacionamento impecável com os outros, incentivava-os, exortava-os, dava gritos apoiando, excitava , era perfeito no que fazia, enfim, um líder natural e um verdadeiro maestro. Para Tolas, Luís Morais era um campeão, um show de palco, um showman, um malabarista ou acrobata de palco, cheio de vida, um "ratinho na música", que tinha formas próprias de colmatar falhas sem que o público delas se apercebesse. Extremamente vivo, matemático no som e autêntico monstro, agarrava o palco que o atraía e conseguia comunicar-se impecavelmente com o público e prendê-lo, através de um estilo muito simpático, passando o espectáculo a pertencer-lhe, em toda a dimensão. Nos bailes, a espontaneidade e o improviso eram, também, características salientes da faceta musical do artista, à semelhança dos espectáculos.

Para além de se ter destacado na vida musical, sobretudo como um grande instrumentista e executante, Luís Morais também ensinou música a várias gerações, embora não se tenha revelado um grande pedagogo musical. De regresso à terra natal, em 1974, é convidado a exercer o cargo de Mestre da Banda Municipal de São Vicente e Monitor de Educação Musical do Ministério da Educação, Cultura e Desporto, tendo leccionado em vários estabelecimentos de ensino nesta ilha, nomeadamente no Liceu Ludgero Lima, na Escola Industrial e Comercial do Mindelo e, finalmente, na Escola Preparatória Jorge Barbosa, para além de dirigir, até à altura da morte, uma escola de música para crianças criada por ele próprio. No entanto, apesar da sua sólida formação teórica no domínio musical, não conhecia as bases da pedagogia musical e, como é evidente, sentia-se limitado no exercício da actividade docente, optando por alguma rigidez que, muitas vezes, no relacionamento com os seus discentes na sala de aula, descambava no autoritarismo, apesar da sua postura informal, humilde, generosa, despida de qualquer intenção maldosa e, não raras vezes, ingénua. Já do ponto de vista meramente político, Luís Morais, considerado um monumento incontornável da música cabo-verdiana, que actuou em renomados palcos internacionais e pôs a sua pedra no alicerce da cabo-verdianidade, inovando e enriquecendo a dimensão melódica cabo-verdiana, transportando para o folclore e para a música tradicional outros ecos importados da América Latina e, enfim, amplificando o mundo da crioulidade a que nós pertencemos, através de sons de clarinete, flauta e saxofone, teria, no passado, dado uma contribuição valiosa para a luta de libertação nacional, mobilizando apoios de muitos cabo-verdianos, na Diáspora, em torno da gesta libertária, pela via da sua participação na gravação do célebre disco Protesto e Luta, em 1973, respondendo, assim, a um convite do PAIGC, se bem que com a condição de o seu nome não figurar na ficha técnica do disco, por razões meramente de segurança. Sabe-se, por outro lado, através do próprio Luís, que Amílcar Cabral o teria convidado a participar directamente na luta, mas, por razões estritamente ligadas à sua intensa actividade musical, o famoso clarinetista declinou o honroso convite. Tanto em Cabo Verde, como no estrangeiro, em reconhecimento ao valioso serviço que vinha prestando ao país e, particularmente, na formação de várias gerações de músicos, Luís Morais foi homenageado, em diferentes ocasiões. Assim, a 22 de Janeiro de 1999, a Cidade do Mindelo que o viu nascer, distingue-o publicamente, através do então Presidente da Câmara Municipal de São Vicente, pela sua contribuição à cultura, como músico e compositor. Posteriormente, o então Presidente da República, Dr. António Mascarenhas Monteiro concede-lhe, no mesmo ano de 1999, a 1.ª Classe da Medalha do Vulcão, em reconhecimento da sua relevante contribuição para o engrandecimento da Nação Cabo-verdiana, para a consolidação dos valores da cabo-verdianidade, bem assim para a projecção de Cabo Verde no Mundo, particularmente nos domínios da divulgação da música e da cultura nacionais.

Surpreendentemente e quando nada apontava nesse sentido, o exímio clarinetista é fulminado irremediavelmente por um cancro de garganta, acabando por falecer aos 67 anos de idade às 14h40 do dia 25 de Setembro de 2002, no Hospital de São Lucas, em New Bedford, nos Estados Unidos da América, conforme o registo n.º 123/2, constante do livro de assento de óbitos n.º 10, arquivado na Conservatória dos Registos Centrais, tendo os restos mortais sido trasladados para Cabo Verde no dia 30 desse mesmo mês e ano. Na sua ilha natal, em São Vicente, o corpo esteve em câmara ardente na Câmara Municipal no dia 1 de Outubro (Dia Mundial da Música), após o que se seguiu o funeral galvanizando uma vasta multidão de dezenas de milhares de pessoas que quiseram, assim, prestar ao músico a sua derradeira homenagem, saldando-se numa autêntica manifestação popular e num acto de cultura, legando um valioso espólio cultural e artístico à Nação cabo-verdiana, através das suas obras musicais de elevado significado simbólico e sentido estético.

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