Numa altura em que somos confrontados com o crioulo ALUPEC, e a tentativa da sua imposição sem compromisso, nada melhor que escutar, ler e divulgar um bravense que escreve ao estilo dos grandes mestres como Nhô Eugénio, Rodrigo Peres, Guilherme Dantas e o grande poeta nascido em Laranjeira, Artur Vieira.
Esmeraldo Duarte nasceu em Cova de Joana, Freguesia de Nossa Senhora do Monte, Brava, decorria o ano de 1964. Os progenitores emigraram quando era ainda criança, deixando-o ao cuidado da avó. Foi no regaço desta, que começa a escrever os seus primeiros poemas, recorda, tinha somente 8 anos. "Se hoje escrevo poesia devo-a a minha avó, Maria Duarte Gonçalves (Dada), pois quando regressava da escola primária, ela me obrigava a fazer redacções, que se foram transformando, com o tempo, em poemas, pois escrevia o que me vinha na alma".
Cedo embrenhou também no mundo da música e aos 14 anos já tocava com alguma perfeição, influenciado pelo seu avô Francisco Fernandes, que foi mais conhecido por Patchico di Cutelo, que ele considera o homem que levou o Funaná à Brava. Recorda também a influência que teve do seu primo Djidjinho di Badalena que tocava viola e gaita com mestria; Eduardo Lopes (Dada di Tapum), o mais famoso construtor de instrumentos musicais e exímio executante. Os bailes e "tocatinas" eram uma constante, pelo que se foi aperfeiçoando.
Em 1981 foi para a Cidade da Praia (Santiago), onde residiu algum tempo na casa de Nazaré de Antoninho Mijota, na Fazenda, recebendo alguma influência musical no género Funaná.
O nosso interlocutor, esteve também em Portugal algumas vezes, tendo inclusive feito parte de uma banda musical.
Esmeraldo, vive nos Estados Unidos, há vários anos, fazendo Pawtucket a sua segunda mais longa morada, depois é claro do seu saudoso Cantinho e Tcheda do tio Nho Frank e da madrinha, Mãe Iva, muito popular e conhecido por todos.
A poesia do Esmeraldo, reflecte a infância saudável em que viveu, os valores da tradição e cultura e o respeito na sociedade. "Devemos ter orgulho do que é nosso e da terra que nos viu nascer". Fala também da natureza emigratória que em alguns casos trouxe "destruição da nossa criação/educação (valores)".
Duarte considera que o que ele escreve leva uma mensagem educativa e chama atenção sobretudo para a edificação, a pureza, o amor, a natureza, a humildade, Djabraba e Deus. Algumas das composições dele foram gravados pelo seu primo Djédjé di Nhô Raúl, Maria Barros e Bela; o Miri Lobo solicitou o seu contributo para um novo trabalho.
Esmeraldo Duarte apresentou seu primeiro trabalho ao grande público em 2005, um CD intitulado "Terra ku'n nascé", com 8 faixas em que interpreta algumas das suas mais belas composições. O CD teve grande aceitação, apesar de não ter tido um acto de lançamento e marketing, devido a uma tragédia familiar que envolveu a família Duarte (a família esteve de luto).
Quanto a planos futuro, está na forja um Projecto Musical, que podemos adiantar, se chama Pecado Divino, 12 composições que terá diversidade de melodias entre os quais as tradicionais mornas e coladeiras ao som do cavaquinho, viola, violão e violino; o mesmo contará com a colaboração de artistas de renome.
Neste momento, o poeta e compositor está concentrado na revisão dos seus poemas, que serão levados ao prelo e convertido em livro; cumprindo assim dois grandes sonhos: A promessa a avó e o desejo de colocar nas mãos dos meninos do povo o seu pensamento humanístico, razões mais que suficientes para dedicar de corpo e alma a este projecto.
As composições e escritos do Esmeraldo estão protegidos, pela organização dos direitos do autor, American Society of Composers, Authors and Publishers, mais conhecidos por suas siglas ASCAP, do qual ele é membro.
Como todo o bom bravense, espera regressar às origens e já velhinho passar os últimos anos no remanso das sombras dos rubros cardeais e na melancolia do nevoeiro que acaricia Cova de Joana.
Deixamos os amigos com o deleite da marca deste romântico e nostálgico poeta, cantor e músico bravense, que escreve e expressa-se no Crioulo da Ilha di Nhô Tatai - Eugénio Tavares.
DICUMENTO
Nós é pasageru marcadu pa tempo
Dicumento di stórias di lembransa
Recordaçam també di squecimento...
Carta di amor e di dor
Remordimento, intendimento, disintendimento
Compaixam e tolerança
Algo fundamental di principio e final...
Ninguém pagá passagi pel bem mundo
Na classe alto ó baxu
Ninguém disenhã ce propio ser
Ninguem scodjé ce propio raça ó cor
Ninguém prepará ce proprio lar, antes del necé...
Ma bida danu direito di scodjé
Entri stranhos e diversidadi pá além di mar
Alguém pá djudanu arquitetá nós proprio distinu
Na strada spinhoso di viver
Na ar livre qui nu ta raspirá
Sem direito di odjá...
Qualquer alguém pode prometé
Ma ninguém podé garanti o amanhã
Pamodi tudo
Tudo enfim é mistério
N'gatchadu na futuro incerto...
Cada dia bida ta abrinu um pagina nobu cu mapa e direçam
El ta danu direito di scodjé entre bem e mal
El plantanu reciocino e fé
El pristanu tempo di nu lutá
Pa glória na reino di Céu
Qui ta marcá iternidadi
Qui ta fazenu volta jogo esquecido
Di chegada e dispidida...
Bida é um bilhete cumpradu pa morti
Dipós ratchadu
N'terradu na confins di squecimento
Ta sperá julgamento
Na silêncio perpectuo
Pa secúlos e secúlos
Marcado na quadro di infinito mistério
Qui futuro ta scondé
Na dimensao mas além qui visão
É pensamento di humano pecador
Frutos di amor e dor
Di luta guerra e incerteza.
Morte é unico berdaderu, fiel e pontual
Qui futuro revela
Qui tempo marcá cu firmeza e certeza...
By Esmeraldo Duarte
Pawtucket, Rhode Island
Parafraseando um adágio antigo, gostaria de sublinhar "Ditoso a Ilha Brava que tais filhos tem".
Por: Carlos Spínola