Paciente e laborioso, o cabo-verdiano João (John) Rodrigues soube esperar pela oportunidade certa para se anunciar como compositor. Mirri Lobo no seu mais recente álbum Caldera Preta é quem interpreta as canções "Sacrifice" e "Tont Temp" escritas por Rodrigues.
Há já alguns anos, John deixou a cidade cultural do Mindelo e se fixou nos Estados Unidos. Vive agora na cidade de Orlando. Lá na terra onde cresceu, em São Vicente, trabalhou durante nove anos com o mestre Pulú, esculpindo madeira para produzir cachimbos de luxo, entre outras obras.
A morte do Mestre, ditou o divórcio com a escultura e foi colando na mente do jovem escultor de cachimbos a ideia da emigração. Antes, já tinha começado a escrever versos e a desenhar mas foi guardando as obras. Instalado nos Estados Unidos, trabalhando como torneador de máquinas, por mais estranho que pareça, encontrou inspiração para continuar a produzir.
"Há muito tempo que escrevo, mantinha as obras em segredo compartilhando-as apenas com os familiares mais próximos. Foi aqui nos Estados Unidos que comecei a encarar esta actividade mais a sério. Tanto assim que como torneador de máquinas buscava tempo para, entre uma actividade e outra, levar para o papel os versos que me vinham à cabeça", conta.
Em Rhode Island, no convívio com os músicos Calú Monteiro (baterista e ex-integrante da banda de Cesária Évora) e Djim Job, o poeta John Rodrigues começou a encarar a possibilidade de encontrar intérpretes para suas composições.
A primeira canção gravada foi "Realidad", no disco Nha Divução da cantora Bela Mendes, isto em 2005. Depois, em 2006, Calú Monteiro e Djim Job apresentaram um conjunto de versos de John Rodrigues ao cantor Mirri Lobo que decidiu incluir "Tont temp" e "Sacrifice" no álbum Caldera Preta. "Inicialmente, Mirri Lobo deveria escolher uma composição mas optou por duas o que reforça ainda mais a minha vontade de seguir trabalhando, escrevendo e à espera que outras portas se abram. Quem sabe se algum dia não ouvirei as minhas músicas nas vozes de Cesária Évora, Dudu Araújo, Tito Paris, Calu Bana...", expressou o nosso entrevistado.
John Rodrigues aproveita para agradecer Calú Monteiro e Djim Djom – responsáveis pelos arranjos musicais das duas composições - por considera-los "pessoas humildes", músicos dinâmicos, capazes e sempre disponíveis para ajudar na descoberta ou na consagração de talentos musicais cabo-verdianos.
"Tont Temp" é um retrato dos anos vividos pelo próprio compositor, e principalmente uma homenagem à esposa (Angela) com a qual John Rodrigues já mantém uma relação de mais de 25 anos. A canção "Sacrifice" foi inspirada na trajectória de um amigo que foi rejeitado pelos familiares da mulher amada. "O que ele passou para não perder a sua conquista só pode ser considerado um sacrifício: "Ele ba pa altar, ora um oração sentida'. Daí o título da música", conta John Rodrigues.
Ele tem um reparo a fazer em relação à assinatura da canção "Tont Temp" que aparece como sendo da autoria de Djim Job, na contracapa do CD Caldera Preta. John Rodrigues explica que foi um erro de quem fez os trabalhos gráficos e que a seu tempo foi alertado sobre o lapso.
Através de seus parceiros Calú Monteiro e Djim Job, o autor de "Tont Temp" fez chegar algumas composições a Fantcha, Dudu Araújo, Amândio Cabral e Maria de Barros. Outro que pode vir a cantar músicas de John é "Sapo" um artista que está em plena ascensão.
Poeta, escultor e desportista John Rodrigues pode vir a ser um continuador das obras de ilustres compositores cabo-verdianos hoje desaparecidos, homens humildes que se misturavam com o povo para compreender e pintar com palavras as vivências. A lista é grande: B. Léza, Jorge Monteiro, Bilocas, Ti Goy, Luís Cabelo, Anu Novo, Manel d'Novas, Orlando Pantera, Biús, Vadú, entre tantos outros.
Para evitar que as suas obras sejam plageadas, Rodrigues tem tudo registado na American Society of Composer Authors & Publishers (ASCAP).